Reflexões para vida interior

 “Para chegares ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes.”

São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo



Sofrimento ou entrega de si mesmo?

O primeiro sofrimento daqueles que abandonam o mundo pela solidão do claustro é a saudade das coisas deixadas para trás: a família, os amigos, as diversões, a carreira...
Ao entrar no eremitério, tudo parece monstruoso, pesado, difícil de coordenar — tantos sentimentos de uma só vez! É o impacto entre o barulho e o silêncio, entre a vida livre e a regrada, entre a liberdade e a obediência. Esse é o primeiro sofrimento — e, digamos, um dos mais profundos.

Santa Teresa de Jesus dizia que “o maior sofrimento da alma principiante é ver-se sozinha, sem ninguém que a compreenda, e sem ainda saber quem é o Amigo que agora a chama”¹. É nesse ponto que se manifesta a tensão entre o humano e o divino, entre a antiga vida e a nova, entre a natureza e a graça. O que antes se chamava liberdade, agora se revela dispersão; o que parecia vida, agora se descobre ruído.

Essa “quebra de contrato” com o mundo exterior, se não for precedida por um profundo discernimento e por um sincero exame de si mesmo — um verdadeiro mapeamento do próprio ego com suas qualidades e defeitos —, tornar-se-á insuportável dentro desta vida de oração, silêncio e trabalho.
Convém lembrar que Deus não muda nossa personalidade — nem a vida conventual o faz. Cada um de nós traz consigo uma individualidade íntima, formada ao longo das experiências e reações diante das circunstâncias da vida. É algo único, como a própria digital.


Por isso, tantos acabam por desenvolver doenças psicológicas, morais ou espirituais: faltaram-lhes respostas, presença, amor, correção e educação nos momentos formativos da vida. Isso define o caráter da pessoa — ou o torna justo e equilibrado, ou o deforma e o torna inconstante.
Com o desmantelamento das famílias, essa tragédia tornou-se quase uma pandemia: um lar desfeito forma uma alma partida. E não pensemos que a vida religiosa venha curar tais feridas de caráter. Não! O claustro não é um consultório psiquiátrico. Já somos, em certo sentido, “loucos” por amor de Cristo — loucos pelo silêncio e pela solidão que tantos temem.

São Paulo fala dessa santa loucura: “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas para os que se salvam é poder de Deus” (1Cor 1,18).
São João da Cruz explica esse paradoxo com a sabedoria dos santos: “A sabedoria de Deus é loucura para o mundo, e a sabedoria do mundo é loucura para Deus”².
A verdadeira sabedoria, portanto, consiste em deixar-se conduzir “por caminhos que não sabemos”, confiando que “para vir a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma”³.

Insondáveis são os desígnios do Senhor, e somente diante do Crucificado compreenderemos algo dessa “sã loucura do amor”.
Santa Teresa chamava isso de “determinação determinada”: continuar, mesmo quando tudo parece escuridão, crendo que “quem começou a dar-nos a água viva, não deixará de a dar até que nos conduza à fonte”⁴.




E aqui acontece algo misterioso e profundamente positivo nessa entrega sincera de si mesmo: algo místico, sublime, por vezes doloroso.

Deus, vendo nossa vontade de servi-Lo bem, começa a cavar a alma.
Primeiro, abre pequenos sulcos — que podem parecer distrações ou inquietações —, mas, se a alma responde positivamente e com atenção, Ele começa a cavar profundos abismos que só Ele pode preencher.
Então, nasce na alma uma necessidade crescente dessa presença divina, e tudo o mais perde importância: só Deus se torna o objeto constante de sua busca.

São João da Cruz descreve esse processo como “a caverna onde Deus se oculta e chama a alma a entrar”⁵ — um abismo que só o Amor pode preencher. O silêncio torna-se então o lugar da fecundidade interior; as dores, o cinzel de Deus; a solidão, o deserto onde brota o manancial.




Santa Isabel da Trindade chama essa realidade de “inabitação divina”:

“Parece-me que encontrei o meu céu na terra, pois o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia em que compreendi isso, tudo se iluminou em mim.”⁶

E ainda:

“Não é preciso elevar-se até o Céu; dentro de si mesma, a alma possui o seu Deus. Ele é mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos.”⁷

É o cumprimento da promessa de Nosso Senhor:

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará; e viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23).

Notemos: Cristo não vem sozinho. Ele vem com o Pai e o Espírito Santo.
Na indivisível Trindade, Deus habita no íntimo da alma que O ama — realidade que ultrapassa nossa compreensão, mas que a alma experimenta como uma certeza interior de que é, verdadeiramente, Templo do Deus vivo (cf. 1Cor 3,16).

Em todo esse processo, friso novamente: nem por tamanha graça Deus mudará a nossa personalidade.
Seremos nós que, sob Sua ação e exemplo, a moldaremos — como numa segunda infância ou nova adolescência espiritual.
Pois aqui, enfim, teremos Deus em nós: e esse Deus se torna casa, pai, mãe, exemplo, correção e amparo.
Ele cura o que o amor humano deixou ferido e restaura o que a falta de afeto destruiu.
Assim, a alma aprende, enfim, o verdadeiro sentido da entrega: não é anular-se, mas deixar que Deus viva em nós (cf. Gl 2,20).


Eremitas Regulares de Santo Elias


Referências

  1. Santa Teresa de Jesus, Castelo Interior, Primeiras Moradas, cap. 1.

  2. São João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofe 29.

  3. São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Livro I, cap. 13.

  4. Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, cap. 21.

  5. São João da Cruz, Noite Escura, Livro II, cap. 5.

  6. Santa Isabel da Trindade, Carta 107 – Elevação à Santíssima Trindade (1906).

  7. Santa Isabel da Trindade, Retiro Espiritual, 8º Dia.
    Citações bíblicas: 1Cor 1,18; Jo 14,23; 1Cor 3,16; Gl 2,20.
    Ver também Catecismo da Igreja Católica, §§260–261 — sobre a inabitação da Santíssima Trindade nas almas em estado de graça.

Comentários

  1. As leituras de Santa Elisabete da Trindade são um convite constante para preenchermos a nossa vida com a graça de Deus. Ela nos lembra que não podemos ficar nem relaxados demais, nem superficiais. É fácil cair nesses extremos: de um lado, a acomodação; de outro, a pressa de fazer tudo sem realmente se enraizar em Deus.

    Então surge a pergunta: como encontrar o equilíbrio entre a nossa humanidade e a divindade que Deus quer nos dar? São João da Cruz nos dá uma pista preciosa: “O que Deus pretende é fazernos Deus, por participação, mas sendo Ele a natureza”. Ou seja, não se trata de deixar de ser quem somos, mas de permitir que a nossa humanidade seja transformada, tocada e iluminada pela presença divina.

    Santa Elisabete viveu isso de forma concreta. Ela buscava que Jesus reinasse em cada canto de sua alma, e isso fazia com que suas pequenas ações, mesmo as mais simples, fossem cheias de Deus. Ela nos mostra que não é questão de fazer grandes feitos, mas de deixar Deus agir dentro de nós, transformando nossa fragilidade em participação na Sua luz.

    O caminho é simples, mas exige coragem: viver a vida com o coração entregue a Deus, deixando que Ele nos molde sem destruir nossa personalidade. É aí que encontramos a medida certa — ser humanos e, ao mesmo tempo, profundamente divinos, fracos e, ao mesmo tempo, fortalecidos pelo Espírito. É nessa harmonia que a alma descobre a plenitude da vida espiritual.

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  2. Digamos que eu tenha uma vida agitada. Dessas pessoas que acordam às 06h00 e dormem mais de meia noite. Que tem muitos filhos para os padrões de hoje, muitos negócios e muita agitação. Mas que possua um modo de se relacionar com Deus que seja o que se chama de carmelita. Isso seria possível? Digo, por exemplo, por existir poucas janelas de tempo para um recolhimento ativo, por exemplo.

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    Respostas
    1. Bom dia, Lucas! Salve Maria!

      Rapaz, a verdade é que hoje a vida anda tão corrida que a gente mal tem tempo pra respirar. Entre trabalho, contas e compromissos, parece que o dia acaba antes de começar. E é aí que o corpo e a cabeça começam a cobrar: estresse, insônia, ansiedade... tudo isso vai minando a gente.

      Agora, se o corpo sente falta de descanso, imagina a alma quando fica sem parar um pouquinho pra estar com Deus? A alma também adoece quando se afasta da graça — é como uma lâmpada apagada no meio da noite¹.

      Por isso, o segredo é ir aproveitando os pequenos momentos. Indo pro trabalho, por exemplo — de carro, ônibus ou a pé — dá pra rezar um Mistério do Terço. Na hora do almoço, outro. E assim, pouco a pouco, você vai criando o hábito da oração no meio da correria.

      O problema é que hoje o celular virou o grande ladrão do tempo. Qualquer brechinha, lá estamos nós rolando tela, vendo coisa que nem acrescenta. Dá pra transformar esse mesmo tempo em oração, sabia? A oração é simplesmente conversar com Deus como se fosse um amigo².

      O Carmelo nos ensina muito isso: viver num diálogo constante com Deus. Logo que acordar, ofereça o seu dia, o trabalho, os compromissos³. Esse simples gesto já é uma oração que abençoa tudo o que você fizer de bom ao longo do dia.

      E, como em qualquer treino, leva tempo pra criar o ritmo. Ninguém fica “em forma espiritual” do dia pra noite⁴. Mas vale a pena. Santa Teresinha dizia que as grandes obras, sem amor, não valem nada⁵. Então, comece vendo Deus nas pequenas coisas do seu dia. Uma hora você vai perceber que está até deixando algumas coisas de lado pra cuidar da “academia da alma”.

      Grande abraço, meu irmão. Fica com Deus!

      Notas

      São João da Cruz, Ditos de Luz e Amor, n. 64.

      Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, cap. 28, n. 2.

      Santa Isabel da Trindade, Elevação à Santíssima Trindade, n. 1.

      São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, II, cap. 7, n. 11.

      Santa Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito B, 3vº.

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