No Monte do Silêncio: Guia para a Vida Interior
Capitulo 2
Conhecer profundamente a ti mesmo
“Médico, cura-te a ti mesmo” (cf. Lc 4,23).
Desde os tempos de Cristo, esta palavra revela uma verdade que poucos têm a coragem de assumir: é mais fácil conhecer e julgar os outros do que voltar o olhar para dentro e confrontar a própria alma. Ao fugir de ti mesmo, perdes o caminho da autenticidade e da graça.
Santa Teresa d’Ávila afirma: “A humildade é a verdade; e a verdade consiste em andarmos na verdade diante de Deus e diante dos homens.”¹ Conhecer-te não é exercício de orgulho, mas ato de humildade: colocar-te na luz de Deus, vendo o que és, o que deverias ser e o que precisas abandonar.
Num mundo que fabrica personalidades, onde muitos imitam e poucos são, corres o risco de perder tua identidade interior. Mas Deus não te criou para ser cópia. Tu és único, e somente quando te colocares diante d’Ele, sem máscaras, começarás o verdadeiro caminho espiritual.
Santa Teresinha do Menino Jesus, que tanto conheceu sua pequenez, dizia:
“É a humildade da alma que atrai Deus. O que Lhe agrada é ver-me amar a minha pequenez e pobreza; é a esperança cega, que tenho em sua misericórdia.”²
Conhecer-te, portanto, não é desespero, mas abandono confiante.
1. O primeiro passo: reconhecer quem és diante de Deus
Tu tens dons, fragilidades, feridas e graças. Não és aquilo que os outros pensam, nem aquilo que imaginas, mas o que és diante de Deus. Sem este conhecimento, todo caminho espiritual se torna falso.
São João da Cruz escreve:
“Para chegares a ser o que ainda não és, deves deixar de ser o que és.”³
Não para destruir-te, mas para libertar-te do falso eu e permitir que Deus te revele tua verdadeira identidade.
Santa Isabel da Trindade rezava:
“Fazei-me reconhecer a minha miséria, mas ao mesmo tempo o vosso amor, para que eu possa permanecer humilde e confiante.”⁴
2. O primeiro inimigo: o orgulho
Depois de te conheceres, verás que há em ti um inimigo mais perigoso que tuas fraquezas: o orgulho. Ele cega, impede a graça, e coloca tua alma no centro, onde só Deus deve estar.
Santa Teresa adverte:
“Deus não comunica suas graças à alma soberba; tudo dá à alma humilde.”⁵
Santa Teresinha, com sua simplicidade, confirma:
“O orgulho é a maior miséria… Deus resiste aos soberbos. Ah! Peço a Jesus que me preserve de tal mal!”⁶
O orgulho foi a queda do demônio. Por isso, se desejas subir ao Monte de Deus, é necessário começar descendo — ao conhecimento humilde de ti mesmo.
3. Caminho para o Monte do Carmelo
Quando aceitas quem és, renuncias às ilusões, combates o orgulho e te abandonas a Deus, então te encontras às portas do Carmelo. Ainda distante do cume, mas já com os olhos fixos nele.
São João da Cruz ensina:
“Quanto mais a alma se esvazia de si, mais Deus nela habita.”⁷
Santa Teresinha acrescenta, como um eco suave:
“A santidade não consiste em tal ou tal prática; consiste em uma disposição do coração, que nos torna humildes e pequenos nas mãos de Deus, conscientes da nossa fraqueza, e confiantes até a audácia em Sua bondade de Pai.”⁸
É nesse espírito que tu és chamado a caminhar: não confiando em tuas forças, mas na graça; não apoiado em tuas virtudes, mas na misericórdia de Deus.
Notas
-
Santa Teresa de Jesus, Caminho de Perfeição, cap. 4.
-
Santa Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito C, 36r.
-
São João da Cruz, Ditos de Luz e Amor, n. 64.
-
Santa Isabel da Trindade, Retiro de 1904, 1º Dia.
-
Santa Teresa de Jesus, Moradas, VI Morada.
-
Santa Teresinha do Menino Jesus, Conselho a uma Noviça.
-
São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, Livro I.
-
Santa Teresinha do Menino Jesus, Carta a Irmã Maria do Sagrado Coração, 6 de julho de 1893.
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