Entre a Cruz e a Misericórdia: Sentido Cristão do Sofrimento





Nele estamos certos de que Deus age não como um carrasco, mas como Pai amoroso, que, por meio dessas penas, será glorificado com a nossa salvação.¹ É então que percebemos que o Preciosíssimo Sangue do Salvador não foi derramado em vão, mas que, por Ele, somos inseridos entre aqueles pelos quais Cristo morreu na Cruz.² A Cruz será sempre a medida dos nossos sofrimentos; assim veremos que nossa dor jamais se estenderá além do madeiro. Talvez nem alcance o supedâneo onde foram cravados os pés do Divino Salvador. E poderemos dizer: “Como reclamar dos meus pés cansados, quando os Vossos estão despedaçados?”



Na imensa e cuidadosa bondade de Deus, crendo firmemente na Comunhão dos Santos, podemos dizer que o Senhor move, na liberdade de Seu amor, “as peças no tabuleiro da vida”, não como quem brinca com marionetes, mas para nos salvar por meio dos méritos, sofrimentos e orações uns dos outros.³  Assim, não apenas um justo se salva, mas também um familiar ou alma querida pode ser auxiliada por essas “moedas espirituais”. Eis o verdadeiro sentido da comunhão entre a Igreja Triunfante, Padecente e Militante, esta última ainda em combate, ansiando os bens eternos e suplicando pela graça da perseverança final. O sofrimento purificador não é senão a Misericórdia de Deus permitindo tal provação, para que um dia possamos gozar de Sua presença sem véus e sem obstáculos.

O sofrimento que nos atinge como prova requer de nós não só esforço e paciência, mas também súplica constante à Divina Providência pela graça da perseverança. Como é difícil sofrer em silêncio! Somos inclinados ao vitimismo, como se relatar nossa dor a outros diminuísse o peso da cruz. Mas, se somos provados, estejamos vigilantes contra as engenhosas investidas do inimigo, que tenta conduzir a alma ao pecado e à perdição eterna: seja na vocação, no mundo, nos sentidos, na desesperança ou, pior, no desespero da salvação.



Quantas vezes me pergunto se minha vida não é uma farsa, uma mentira habilmente construída para obter louvores! Dói demais fazer tais questionamentos, sobretudo quando percebemos que já demos passos no caminho da virtude. Quantos apegos ainda conservo! Mesmo aqueles que considero piedosos tornam-se obstáculos nesta caminhada. Talvez por fraqueza ou carência, buscamos preencher vazios com coisas passageiras, em vez de Deus. Disso nascem remorsos que dilaceram a alma. Preferível seria que esse sofrimento nos lapidasse, para ganhar méritos.

Gosto e considero necessário registrar tais reflexões, para que depois, relendo-as, possa avaliar se avancei, regredi ou perdi. Elas me servem como uma balança para pesos e medidas, ajudando-me a reformar, restaurar ou reconstruir, segundo a vontade de Deus. Tomando como remédio a humildade, suportaremos melhor o sofrimento, vivendo-o pelo tempo que o Senhor julgar necessário para o nosso bem.

Por fim, há um sofrimento constante, que nos acompanha desde o uso da razão até o último suspiro: o sofrimento das consequências. Toda ação gera um efeito. O que mais o agrava é tentar resolver um problema criando outro, aumentando o peso sobre si. Sofro ainda por não conseguir resolver uma coisa por vez; a ansiedade é péssima conselheira e costura com má linha os tecidos do dia a dia. Sofrer esta enfermidade já é por si um grande peso, pois traz o sofrimento do desequilíbrio que nem sempre conseguimos controlar.

Eremitas Regulares de Santo Elias


Notas de Rodapé

  1. Hb 12,6: “O Senhor corrige a quem ama, e açoita a todo filho que recebe.” 

  2. 1Pd 1,18-19; Catecismo da Igreja Católica (CIC), 601. 

  3. Col 1,24; CIC, 1475 – “Tesouro da Igreja e comunhão dos santos.” 

  4. Credo de Niceia-Constantinopla: “Creio na comunhão dos santos.” 

  5. Mt 24,13 – “Quem perseverar até o fim será salvo.” 

  6. Ap 21,3-4 – “Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos.” 

  7. Rm 12,12 – “Sede pacientes na tribulação, perseverantes na oração.” 

  8. 1Pd 5,8 – “Vosso adversário, o diabo, vos rodeia como leão.” 

  9. Mt 19,21 – “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens...” 

  10. Mt 6,34 – “A cada dia basta o seu cuidado.” 

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