O Caminho do Abandono: a Escola dos Santos Carmelitas

Tendo já recebido uma introdução à vida eremítica pelas conversas anteriores à entrada no claustro, o candidato inicia o seu caminho não apenas ao transpor os muros do mosteiro, mas já em sua própria casa. Ali começa, silenciosamente, a primeira oblação: o abandono de si mesmo. Cada lembrança da família, cada saudade, cada afeto terreno é pouco a pouco vencido por um ato de confiança, por uma virtude conquistada ou por uma renúncia oferecida por amor.

Dos laços familiares ao convívio com os novos irmãos de comunidade; das responsabilidades do lar às funções humildes da casa religiosa; dos antigos divertimentos à busca de estar entretido unicamente em Deus; dos projetos de carreira à entrega total à Divina Providência—tudo é gradualmente recolocado sob a luz da Eternidade. O eremita aprende a esperar somente de Deus, e não dos frágeis contratos e cálculos humanos.

Se esse caminho for percorrido com fidelidade e constância, logo se alcançará aquilo que os santos desejaram: pertencer inteiramente a Deus. Santa Teresinha do Menino Jesus exprime essa entrega com incomparável simplicidade: deseja ser como “uma bolinha nas mãos do Menino Jesus: se Ele quiser brincar comigo, eu me alegro; se me deixar num canto, também me alegro”. Tal disposição é o auge do desprendimento.




Quem chega a este ponto já não estranha a cruz, nem se perturba com o abandono. Como ensina Santa Teresa d’Ávila, “Deus basta”. A alma transformada no altar do Sacrário já não vive para si: oferece-se como hóstia de reparação, esquecendo-se de si para socorrer o próximo. Torna-se o bom samaritano que ungindo com o azeite da oração e o vinho da escuta, trata as feridas do irmão sofredor, viciado, marginalizado.

Demorei, confesso, a compreender o valor do sofrimento. Não podia aceitar que Deus se alegrasse com as minhas dores. Só mais tarde entendi, com São João da Cruz, que “o sofrimento purifica como o fogo purifica o ouro”, e que mais serve à nossa salvação do que ao agrado de Deus. Desde então, não busco a dor, mas se ela chega, aceito-a como meio de santificação.





Não tenho ainda a coragem das nossas Madres carmelitas: Santa Maria Madalena de Pazzi que exclamava, “Senhor, nunca morrer, sempre sofrer”, ou Santa Teresa que dizia, “Señor, o morir o padecer”. Também não alcancei a alma abrasada de Santa Isabel da Trindade, que ofertava sua vida como “louvor de glória da Santíssima Trindade, para ser inteiramente possessão de Deus”. Mas compreendo que o sofrimento aceito se transforma em graça, e a graça em glória.


O sofrimento mais duro é o de purificação—aquele que toca o íntimo da alma, desmorona nossas seguranças e lança-nos de joelhos. Mas é também o mais fecundo. Nesse momento, resta apenas exclamar, como ensina a tradição carmelita: “Fiat voluntas tua!” Este breve ato de abandono, ao mesmo tempo que fere, consola; ao mesmo tempo que humilha, eleva; ao mesmo tempo que nos aniquila, nos diviniza.


Eremitas Regulares de Santo Elias


Referências

  • Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma Alma.

  • Santa Teresa de Jesus (d’Ávila), Livro da Vida; Caminho de Perfeição.

  • São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo; Noite Escura.

  • Santa Maria Madalena de Pazzi, Colóquios Espirituais.

  • Santa Isabel da Trindade, Elevação à Santíssima Trindade; Diários e Cartas.

  • Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), A Ciência da Cruz.

  • Bíblia Sagrada, Mt 16,24-25; Lc 10,33-35.

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